A crescente preocupação com a saúde mental no ambiente corporativo tem ganhado destaque nos últimos anos, impulsionada por uma série de fatores, como o aumento dos transtornos emocionais relacionados ao trabalho, o impacto da pandemia de COVID-19 e as transformações nas relações profissionais. Nesse cenário, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representa um avanço fundamental na legislação brasileira, ao incluir a gestão dos riscos psicossociais como parte das obrigações das empresas.
A nova abordagem da NR-1 evidencia que a saúde do trabalhador deve ser compreendida de forma integral, considerando não apenas os riscos físicos e biológicos, mas também os fatores emocionais e mentais que influenciam diretamente o bem-estar e a produtividade. Essa mudança traz implicações práticas e estratégicas para empregadores, profissionais de recursos humanos, gestores de segurança do trabalho e lideranças corporativas.
Este artigo tem como objetivo apresentar, de forma clara e estruturada, o que mudou na NR-1, qual a relação dessas mudanças com a saúde mental no trabalho e como as empresas podem — e devem — se adaptar a esse novo cenário. Também serão discutidas abordagens práticas, desafios setoriais e recomendações para promover ambientes psicologicamente seguros, com vistas a contribuir para uma mudança organizacional sólida e sustentável.
O que é a NR-1 e qual seu papel na legislação trabalhista?
Compreender a NR-1 é essencial para interpretar seu impacto nas demais normas regulamentadoras. Esta seção apresenta um panorama da origem da norma, sua relação com outras diretrizes e seu papel na promoção da saúde integral no trabalho.
Origem e contexto da norma
A NR-1, publicada originalmente em 1978, passou por reformulações significativas ao longo do tempo, culminando em sua versão mais recente, que incorpora o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) como base estruturante para todas as demais normas regulamentadoras. Seu objetivo é assegurar que os ambientes de trabalho estejam alinhados com os princípios de prevenção de acidentes, promoção da saúde e garantia do bem-estar dos trabalhadores.
Estrutura e interconexões
A NR-1 não atua isoladamente. Ela é complementada por outras normas, como a NR-7 (PCMSO), NR-9 (Avaliação de Riscos Ambientais), NR-17 (Ergonomia), entre outras. Com a integração dos riscos psicossociais, a NR-1 amplia a abrangência da prevenção, conectando aspectos físicos, químicos, biológicos e agora também mentais e emocionais.
Papel pedagógico e normativo
Além de sua função normativa, a NR-1 tem papel pedagógico: promove a cultura de prevenção e estimula as empresas a implementarem uma gestão contínua e proativa dos riscos. Sua atualização acompanha os avanços da psicologia do trabalho, da medicina ocupacional e da governança corporativa voltada à sustentabilidade humana.
Mudanças na NR-1 em relação à saúde mental
A seguir, abordaremos as principais alterações introduzidas na NR-1 que envolvem a saúde mental, bem como os contextos que impulsionaram essas mudanças e a integração com outras políticas e legislações.
O que motivou a atualização
A revisão da NR-1 foi motivada por estudos e evidências que demonstram o impacto crescente das condições psicossociais na saúde dos trabalhadores. Relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam o esgotamento mental como um dos principais fatores de afastamento e perda de produtividade.
Principais alterações
A principal mudança consiste na obrigatoriedade de identificar, avaliar e controlar riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Esses riscos devem ser incluídos nos documentos do PGR e considerados nas análises de perigos, nos controles operacionais e nas ações de melhoria contínua.
Além disso, a norma exige que os empregadores documentem as medidas adotadas para promover a saúde mental e garantam a participação dos trabalhadores nas decisões relacionadas à gestão desses riscos.
Integração com outros instrumentos legais
A mudança na NR-1 também se alinha a outras legislações, como a Lei nº 14.457/2022 (Programa Emprega + Mulheres), que trata de saúde emocional e bem-estar nas empresas, e a Lei nº 13.979/2020, que ampliou o debate sobre saúde mental durante a pandemia. Isso fortalece o papel da norma como vetor de transformação no mundo do trabalho.
O que são riscos psicossociais no trabalho?
Os riscos psicossociais envolvem diferentes dimensões da experiência laboral. Eles podem surgir do conteúdo do trabalho (tarefas repetitivas, ausência de significado), da organização do trabalho (carga horária, metas), das relações interpessoais (conflitos, assédio) ou do contexto socioeconômico (pressão por desempenho, instabilidade econômica).
Efeitos sobre os trabalhadores
A exposição contínua a esses riscos pode causar ansiedade, depressão, burnout, distúrbios do sono, alcoolismo, irritabilidade, entre outros sintomas. Do ponto de vista físico, há correlação com problemas cardiovasculares, distúrbios gastrointestinais e imunológicos.
Impactos sobre as organizações
Além do sofrimento individual, os riscos psicossociais afetam diretamente os indicadores organizacionais. Há aumento do absenteísmo, rotatividade, conflitos internos e passivos trabalhistas. Ambientes com elevada carga de estresse apresentam queda de produtividade, inovação e qualidade nos relacionamentos.
Impacto da inclusão da saúde mental na NR-1 para as empresas
A inclusão da saúde mental na NR-1 muda o paradigma da segurança do trabalho, que tradicionalmente focava em acidentes físicos e exposição a agentes químicos. Agora, as empresas devem olhar para fatores invisíveis, subjetivos e, muitas vezes, enraizados na cultura e na estrutura organizacional.
Repercussões estratégicas
A gestão da saúde mental deixa de ser um diferencial e passa a ser uma exigência legal. Isso implica revisão de políticas internas, redefinição de indicadores de desempenho, capacitação das lideranças e realocação de recursos para ações preventivas.
Consequências jurídicas e reputacionais
Empresas que não cumprirem as novas exigências estarão mais vulneráveis a processos judiciais, denúncias ao Ministério do Trabalho e impactos negativos em sua reputação. Por outro lado, organizações que incorporarem boas práticas terão vantagem competitiva, maior capacidade de atração de talentos e melhoria no clima organizacional.
Setores mais impactados pelas mudanças
Alguns setores apresentam condições de trabalho que intensificam os riscos psicossociais. A seguir, destacamos os principais segmentos que precisarão ter atenção redobrada na adequação à NR-1.
Setor da saúde
Profissionais da saúde lidam com alta pressão emocional, jornadas extensas e grande exposição à dor e sofrimento humano. A exigência de gestão de riscos psicossociais na NR-1 reforça a importância de protocolos de apoio psicológico e medidas de prevenção ao burnout.
Setor da educação
Educadores enfrentam desafios como sobrecarga de trabalho, desvalorização profissional e pressão por resultados. A adequação à NR-1 demanda políticas de valorização, redes de suporte emocional e ambientes colaborativos.
Setor industrial
Ambientes fabris com rotinas intensas, pouco espaço para participação e lideranças autoritárias apresentam alto risco psicossocial. A revisão da NR-1 reforça a necessidade de incorporar práticas mais humanizadas e participativas na gestão da produção.
Recomendações práticas para implementação
A implementação das exigências da NR-1 demanda uma abordagem estruturada, sensível ao contexto da organização e com foco na prevenção contínua. Nesta seção, são apresentadas recomendações práticas que podem orientar empresas de diferentes perfis.
Diagnóstico organizacional
Toda ação começa com um bom diagnóstico. As empresas devem realizar avaliações de clima organizacional, entrevistas com equipes, auditorias internas e análise de indicadores de saúde e segurança para mapear os principais riscos psicossociais.
Envolvimento da liderança
A liderança deve ser parte ativa das ações. É fundamental que diretores, gerentes e supervisores passem por capacitações, compreendam os conceitos da NR-1 e sejam exemplos no estímulo ao bem-estar emocional.
Elaboração de políticas de saúde mental
Com base no diagnóstico, deve-se criar políticas claras que envolvam ações educativas e de sensibilização, protocolos de acolhimento e escuta, critérios objetivos para a identificação de fatores de risco, planos de ação com metas e prazos definidos, além de mecanismos de monitoramento e avaliação contínua.
Integração com outros programas
A NR-1 pode ser integrada com programas de qualidade de vida, segurança do trabalho, diversidade e inclusão, e responsabilidade social. A sinergia entre diferentes frentes fortalece os resultados e potencializa os efeitos positivos no ambiente organizacional.
Ferramentas e recursos para empresas
Para que a gestão de riscos psicossociais seja efetiva, é importante que as empresas utilizem ferramentas e recursos adequados ao seu porte e realidade. Esta seção reúne algumas das principais soluções disponíveis atualmente no mercado.
Algumas ferramentas que podem apoiar a gestão dos riscos psicossociais incluem:
- Inventários de riscos psicossociais (como o COPSOQ);
- Indicadores de absenteísmo, rotatividade e afastamentos por transtornos mentais;
- Pesquisas internas anônimas e de clima organizacional;
- Sistemas de gestão integrada com dashboards e relatórios automatizados;
- Parcerias com profissionais de psicologia do trabalho e medicina ocupacional;
- Plataformas digitais de escuta ativa, atendimento psicológico e suporte emocional.
Empresas com maior maturidade em gestão de pessoas podem adotar metodologias mais robustas, como a ISO 45003:2021, primeira norma internacional dedicada à saúde mental e bem-estar no trabalho.
Adaptações conforme o porte da empresa
A aplicação da NR-1 e das boas práticas de gestão de saúde mental pode variar de acordo com o tamanho e a complexidade da organização.
Pequenas empresas
Negócios de menor porte podem começar com ações simples e de baixo custo: pesquisa de satisfação interna, flexibilização de horários, criação de um espaço de escuta e contato com profissionais externos. O importante é estabelecer uma cultura de diálogo e prevenção.
Médias empresas
Além das ações básicas, é possível implementar treinamentos regulares, estruturar o setor de RH com foco em saúde ocupacional e elaborar manuais internos com diretrizes sobre saúde emocional, alinhados ao GRO e ao PGR.
Grandes empresas
Empresas maiores podem criar comitês multidisciplinares, contratar psicólogos internos, investir em plataformas de bem-estar e elaborar relatórios periódicos integrados à governança corporativa e aos princípios ESG. A comunicação interna deve ser reforçada e baseada em dados.
A integração com os princípios ESG
A NR-1 fortalece o elo entre a saúde mental no trabalho e os compromissos sociais e de governança das organizações.
A dimensão “S” (Social) do ESG envolve diretamente as condições de trabalho, a valorização do ser humano, a diversidade, a inclusão e o cuidado com a saúde física e mental dos colaboradores. Empresas que adotam práticas voltadas à promoção do bem-estar demonstram comprometimento com o desenvolvimento sustentável, o respeito às pessoas e a ética corporativa.
Além disso, práticas baseadas na NR-1 reduzem riscos reputacionais, evitam passivos judiciais e promovem relações mais transparentes com todos os stakeholders. Esse posicionamento estratégico fortalece a imagem da empresa no mercado, inclusive perante investidores e instituições certificadoras.
Conclusão
A atualização da NR-1 representa um novo marco para a segurança e saúde no trabalho no Brasil. Ao incorporar a saúde mental como elemento central da gestão de riscos, a norma reconhece o impacto das emoções, relações interpessoais e estruturas organizacionais no bem-estar dos trabalhadores.
Adaptar-se às exigências da NR-1 não é apenas uma questão legal: é uma escolha estratégica para organizações que desejam prosperar em um mundo cada vez mais atento ao fator humano. Empresas que colocam a saúde mental no centro de sua cultura corporativa constroem ambientes mais justos, produtivos e sustentáveis.
O futuro do trabalho exige equilíbrio, escuta e empatia. A NR-1 é um importante instrumento para que essa transformação aconteça — e cabe às lideranças de hoje garantir que ela se concretize com responsabilidade e compromisso.

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